Em tempos de Copa, um time de garotos deixou milhões de pessoas em suspense por dezoito longos dias. A atenção mundial se dividiu entre os estádios da Rússia e uma extensa caverna no norte da Tailândia, onde doze pré-adolescentes e adolescentes, na companhia de um adulto, estavam isolados a quatro quilômetros da entrada e totalmente impossibilitados de sair. O sofrido resgate, que pôde ser acompanhado em detalhes, neste Planeta interconectado pelas comunicações, assumiu as características de um reality show. Isso torna desnecessário tratar de quaisquer detalhes e lances dessa sofrida experiência. 

Embora essa divulgação instantânea torne desnecessário tratar dos detalhes dessa sofrida experiência, um aspecto nessa história me chamou atenção e me fez refletir. Em um país em que 95% da população constituem-se de budistas, o contato com o primeiro socorrista a alcançar o grupo foi feito por um garoto cristão de quatorze anos, Adul Samon, o único a falar inglês. Pus-me a pensar nesse adolescente, preso na solidão de uma caverna imersa na treva , matando sua sede com gotas de água que pingavam das estalactites, tendo força para dividir com os colegas o alimento mais precioso de que precisavam naquelas longas horas escuras: a fé na salvação de todos do grupo.

Poderíamos pensar: qual o valor da fé em uma situação em que a realidade apontava para o desespero e o sofrimento? Ocorre que a fé gera confiança e faz acreditar nas probabilidades mais remotas, levando a apostar no sucesso, mesmo quando ele se torna duvidoso e cercado por todo tipo de dificuldades. Túneis estreitos, tortuosos, cheios de água, impossibilitando tanto a saída para o exterior, como a aproximação de quem se dispusesse a ajudar, caso dessem por seu desaparecimento… Mas, a fé prescinde da objetividade e dirime a dúvida, sustentada que é pela confiança , que se associa a outra virtude: a esperança. 

“Espera em Deus, pois ainda O louvarei, a Ele que é o meu socorro e meu Deus.”( Salmos, 42:11)

A esperança na assistência divina situa-se no plano emocional; por isso, é capaz de inflar de confiança o peito exaurido pela maior adversidade. Para Deus, nada é impossível: essa certeza mantém aceso um brilho que se destaca nas trevas mais densas, substituindo o pessimismo por uma força que dá alento e mantém a vida pulsando, mesmo quando tudo aponta para o desespero e a desilusão. Um garoto de quatorze anos tinha fé e esperança suficientes para alimentar onze jovens colegas e mais um adulto. Eram seus companheiros( cum+ panis, do latim: com quem divido meu pão), com quem dividia o pão imaterial de que dispunha naquelas horas extremas. 

Essa fé e essa esperança tiveram a outra virtude teologal conectadas a elas no lado externo da caverna. Em um mundo em que as dificuldades fazem vicejar o individualismo e o egoísmo, provou-se mais uma vez que a caridade, a principal das virtudes, segundo São Paulo, mantém-se acesa, sendo capaz de motivar as pessoas a grandes sacrifícios pessoais a fim dedicar-se ao próximo. A essência mais notável do ser humano, geradora da compaixão, mostrou-se atuante, principalmente, nos SEAL’s socorristas. Além do profissionalismo e das particularidades de seu trabalho, demonstraram uma capacidade de altruísmo e dedicação admiráveis, a ponto de um de seus veteranos a sacrificar a própria vida na ação de resgate. 

Fé, esperança e caridade: o mundo pode desenvolver-se tecnologicamente de forma admirável, a humanidade pode atingir uma condição de desenvolvimento científico apenas sonhada, as comunicações podem transformar, de fato, o mundo em uma aldeia global. Mas, essas três virtudes é que continuarão a marcar o homem na sua essência pelos séculos que ainda virão. Elas foram o brilho na escuridão isolada da grande caverna da Indonésia. Elas poderão iluminar o resgate de milhares de outras crianças e adolescentes que convivem com a criminalidade diária nas favelas brasileiras, que são treinadas para matar nas guerras africanas, que crescem sem a presença e o amor dos pais no resto do mundo.