Tarde da noite, revisito Paulo Mendes Campos e me detenho em uma de suas crônicas, Para Maria da Graça. Escrito há tanto tempo, o texto me chama atenção pela atemporalidade. Dirigidas a uma adolescente em idade de cursar o início do Ensino Médio, as palavras me impressionam, em especial, pela atualidade de algumas observações do autor mineiro:

“Os homens vivem apostando corrida, Maria. Nos escritórios, nos negócios, na política nacional e internacional, nos clubes, nos bares, na literatura, até amigos, até irmãos, até marido e mulher, até namorados, todos vivem apostando corrida. São competições tão confusas, tão cheias de truques, tão desnecessárias, tão fingindo que não é, tão ridículas muitas vezes, por caminhos escondidos, que, quando os atletas chegam exaustos a um ponto, costumam perguntar: ‘A corrida terminou! Mas quem ganhou?’”

Na verdade, vivemos em um mundo muito competitivo e temos que nos adequar a essa realidade. Produtos e serviços, funções, cargos, aparência, competência, sucesso: a competição nos cerca a todo momento, em todos os lugares. Essa pressão tem uma faceta positiva, pois nos obriga a estarmos atentos e nos aprimorarmos, expulsando a acomodação de nossos domínios. Desse modo, identificar gaps, aprimorar performance, aprofundar conhecimento, dominar tecnologias, entre tantas outras necessidades que o mundo atual impõe, passam naturalmente a fazer parte da formação das pessoas que vivem hoje e isso pode tornar a competição algo muito motivador .

Mas, como salienta Paulo Mendes Campos, muito dessa competitividade, que se tornou uma marca da cultura atual, é preciso. Rankings e outros mecanismos comparativos podem ser estimulantes e necessários. Mas, ocorre que o apelo ao sucesso, frequentemente, acaba exacerbando-se  e gera uma corrida desenfreada, na qual brilhar no alto do pódio, destacando-se como melhor entre todos, passa a ser o objetivo principal.

Ser o melhor jogador de futebol do mundo, o atleta mais rápido, o empresário mais rico, a modelo mais linda, o aluno de melhor desempenho, o colégio mais destacado no ranking nacional: ser o primeiro passou a ser uma obsessão que gera uma expectativa permanente. O resultado não poderia ser outro , a não ser um nível de ansiedade tão alto que pode ser até letal algumas vezes. Nesse contexto, uma indagação óbvia quase nunca é feita: é preciso, realmente, ser o primeiro?

A competição pode ser inevitável, mas metas dos indivíduos implicados nela devem ser individuais. Toda pessoa tem, por dever, procurar ser melhor. Contudo, isso não significa ser “a melhor”. É verdade que, disseminada amplamente, há  uma cultura que reforça e pressiona para isso e imponha nos parâmetros de uma competição esportiva: quem não é o primeiro não é ninguém, só serve o lugar mais alto do pódio. Mas, na vida, na verdade, ganha quem consegue realizar seus próprios objetivos, mesmo que isso não satisfaça o desejo daqueles que estão em torno, na expectativa, sejam eles conhecidos, amigos, ou mesmo pais.

A noite vai alta e resolvo ir para a cama, ainda pensando nas palavras de Paulo Mendes Campos a Maria da Graça: “ Se tiveres que ir a algum lugar, não te preocupes com a vaidade fatigante de ser a primeira a chegar. Se chegares aonde quiseres, ganhaste.”