Na ala Richelieu, no térreo do Louvre, na sala 3, há uma pedra escura de cerca de 2,5m de altura, em que 281 artigos, concebidos pelo rei Hamurabi em 1770 a.C., estão entalhados em babilônio antigo. A numeração desses artigos, na verdade, vai até 282. Contudo, por superstição, o 13º artigo foi suprimido. E antes de rir dessa ingenuidade, sugiro lembrar que, mesmo no cenário tecnológico de hoje,  alguns hotéis, em vários países, excluem o 13º andar pelo mesmo motivo.

Nessa pedra, chamam especial atenção os artigos 196, 197 e 200. “ Se alguém arranca um olho a um outro, um olho seu lhe deverá também ser arrancado”, prescreve o primeiro. O segundo acompanha a mesma linha de pensamento: “ Se ele quebra o osso a um outro, se lhe deverá quebrar o osso.” O terceiro confirma a lógica: “Se alguém parte os dentes de um outro, deverá ter partido os seus dentes na mesma condição.”

No Antigo Testamento, o código mosaico resume esses três artigos e prescreve ( Lv 24:20): “Fratura por fratura, olho por olho, dente por dente, como ele tiver desfigurado a algum homem, assim se lhe fará.” Essa lei até hoje é conhecida pelo nome latino: lex (lei) talionis (talis= tal, mesmo), lei de talião. Portanto, talião não é um antropônimo, como se costuma pensar. Pouco mais de seiscentos d.C., Maomé, no Alcorão( 2:178-179), insistiu em confirmar essa forma de justiça para as tribos da península arábica : “Ó fiéis, está-vos prescrito o talião (…). Tendes, no talião, a segurança da vida, ó sensatos, para que vos refreeis.”

Desse modo, a vingança, por incontáveis anos, foi considerada um ato justo, controlado pela lei, a fim de que não fosse executado de maneira desproporcional. Mas a desproporção ocorria frequentemente e Lameque é um exemplo bíblico da retaliação que se dá muito mais intensamente do que a agressão sofrida: “ Porque sete vezes Caim será vingado; mas Lameque, setentas vezes sete.” Desse modo, Lameque justifica o ato homicida que perpetrou por ter tido seu pé pisado, um evidente exagero em relação à ofensa recebida.

Assim, mesmo com a vigência do talião, a vingança, devido ao ódio gerado na pessoa ofendida, saía de controle e assumia frequentemente um caráter desproporcional, atirando homem contra homem, clã contra clã, tribo contra tribo, nação contra nação.

Subvertendo essa cultura de vingança, amplamente disseminada também entre os judeus,  Jesus se pronuncia, de forma revolucionária, no Sermão da Montanha : “Tendes ouvido que foi dito:’Olho por olho, dente por dente.’ Eu, porém, vos digo: não resistais ao homem mau; mas, a qualquer que te dá na face direita, volta-lhe também a outra; ao que quer demandar contigo e tirar-te a túnica, larga-lhe também a capa; e quem te obriga a andar mil passos, vai com ele dois mil.” ( Mateus, 5:38-42)

E Jesus vai muito além: consagra não só o perdão em substituição à vingança, mas impõe o perdão generoso, inversamente proporcional à vingança de Lameque, pedindo que se perdoe de forma desproporcional, em  um nível tão alto que o perdão se transforma em amor ao inimigo:” Ouçam todos: amem vossos inimigos. Façam bem aos que vos odeiam. Orem pela felicidade dos que vos amaldiçoam. Peçam a bênção de Deus sobre os que vos magoam.” (Lucas 6-27)

Os judeus ansiavam por um Messias guerreiro, capaz de vingá-los da opressão e do domínio estrangeiro. Jesus lhes oferece, contrariamente, uma mensagem de amor . Essa mensagem se mostrou infinitamente mais consistente, pois ela conquistou inteiramente não só os opressores três  séculos depois, como também grande parte do mundo ao longo de dois mil anos.

Assim, a mensagem cristã do perdão que se transforma em amor mantém, até hoje, acesa a esperança de que os homens possam esquecer diferenças, paixões e ódios, aproximando-se a fim de encontrar, por meio diálogo e do entendimento, as soluções pacíficas, marcadas pela generosidade e pela boa vontade. Numa sociedade em que interesses, muitas vezes, justos, frequentemente geram antagonismos que podem ocasionar divergências perigosas para a harmonia e a convivência em casa, no trabalho e nos demais ambientes, a mensagem de perdão, proferida revolucionariamente por Jesus há dois milênios, continua sendo a grande esperança de uma humanidade melhor, regida não pelo desejo de vingança e retaliação, mas pela compaixão e pelo amor.