A escola sempre constituiu, ao longo da história, um elemento de superestrutura ideológica, com características próprias de acordo com a evolução social. De privilégio de uma pequena minoria, o saber passou a estar, paulatinamente, ao alcance de um número cada vez  maior de pessoas. Com a expansão das democracias, o ensino passou a ser considerado um direito de todos, ideia aceita em praticamente todo o mundo hoje.

Assim, por estar atrelada a interesses políticos e econômicos, a escola sempre refletiu o pensamento da classe dominante em cada época. Desse modo, nos últimos séculos, do ponto de vista sociológico e econômico, considerando as pressões impostas pelo desenvolvimento  industrial, ocorreu a  criação de um modelo educacional, caracterizado pela disciplina, que refletia as relações de produção desenvolvidas no setor fabril. Sirenes, filas, horários rígidos, ambiente murado, entre outras particularidades de uma fábrica, foram incorporados às escolas.

Esse panorama receberia ainda o reforço das significativas mudanças processadas pela influência do cientificismo da segunda metade do século XIX.  Darwin, com o evolucionismo,  abalou a base que sustentava a criação. Nietzsche chamou atenção para a morte da filosofia metafísica. E Freud, principalmente, com a psicanálise, decretou uma definitiva desconfiança em relação à racionalidade, tão cara à humanidade desde os antigos filósofos gregos. Na teoria freudiana, as  instâncias formadoras da psique, o Id, instintivo e  insaciável de prazer imediato, o Ego, regendo o princípio de realidade, construtor da civilização, e o Superego, criador da moral e controlador da transgressão, abrem caminho para o desenvolvimento de uma educação amparada pela psicologia e por novos conceitos de disciplina.

Com os anos, o  aumento da produção, possibilitado pelo desenvolvimento técnico e científico,  gerou a necessidade de um apelo cada vez maior ao consumo.  O indivíduo  – o consumidor –  passou a ser objeto de uma atenção especial. Isso teria, como consequência, o deslocamento do foco heteronômico para o da autonomia. Nesse modelo, o Eu passou a constituir o centro de atenção e atender às suas necessidades tornou-se prioridade.

A preocupação com empoderamento desse Eu tornou-se obsessiva e hoje  reflete-se na enorme produção de livros de autoajuda,  elaborados  a fim de alimentar o ego e dar segurança a indivíduos, agora obcecados com desempenho, metas e objetivos.  Nesse quadro, a questão religiosa deixa de ser relevante, pois inúmeras pessoas não mais recorrem  a Deus e preferem ficar  perdidas e desamparadas no universo de sua autossuficiência. Retornando a  Freud, é sempre bom lembrar que ele passou a tratar a histeria de suas clientes (hystera, em grego, é útero) a partir da análise de sua psique,  atribuindo os distúrbios notadamente  à repressão dos impulsos de natureza  sexual. Hoje, a pressão por desempenho e a expectativa por resultados  é que se tornam as principais causas de desconforto e de muitas doenças. A  histeria  cedeu lugar à ansiedade, à  depressão, à automutilação, tratadas com medicamentos que, por mais eficazes que sejam, nem sempre evitam problemas maiores, como  tentativas de suicídio e os muitos  óbitos delas decorrentes. .

Nessa nova realidade, a escola constitui  a esperança de uma  mudança para melhor, pois,  em vez de simplesmente reforçar o modelo vigente, pode passar a resgatar valores atemporais, possibilitando que a sociedade se construa no equilíbrio entre a heteronomia e a autonomia. Para conseguir isso, é necessária uma mudança nas suas propostas pedagógicas, visando ao desenvolvimento das habilidades socioemocionais, condição sine qua non para preparar as crianças e jovens para a vida.

Embora seja inquestionável a importância da família como base da educação de crianças e jovens, somente a escola pode promover o desenvolvimento intencional dessas habilidades. Perseverança, resiliência, empatia, autoconhecimento, comunicação assertiva, entre outras, requerem um trabalho especializado, intencional, dirigido, avaliado e dependem de planejamento  e continuidade. Nesse contexto, torna-se possível, inclusive, a retomada da espiritualidade, que permitiria  retirar o foco do Eu empoderado e voltar o olhar para o Outro. Assim, seria possível aliviar a enorme  pressão provocada pela expectativa de desempenho individual e abrir espaço para o desenvolvimento de um mundo com lugar para a humildade, a esperança e a compaixão.