Entenda melhor a proposta e veja como as novas diretrizes vão impactar a vida dos estudantes

Desde que foi sancionada pelo presidente Michel Temer, em fevereiro deste ano, a reforma do ensino médio gera polêmica, dúvidas e debates entre alunos, professores e especialistas em educação. O texto apresentado pelo Governo Federal reúne um conjunto de novas diretrizes para os últimos três anos do ensino escolar, e elas flexibilizam o conteúdo que será ensinado aos alunos e fazem alterações na distribuição do conteúdo das 13 disciplinas tradicionais ensinadas nas redes públicas e privadas de ensino de todo o Brasil.

Para Marco Antônio Guariento Barbosa, coordenador da terceira série do ensino médio de uma grande instituição de  Belo Horizonte, uma das maiores vantagens apresentadas pelo texto é a ampliação da carga horária de aulas e o fomento às escolas integrais, ou seja, que oferecem atividades na parte da manhã e da tarde. O estudante Thales Carvalho Rodrigues, de 18 anos, frequenta uma escola que já oferece a carga horária integral e confirma o pensamento.

Ele afirma que, além de aprender conteúdos importantes para o vestibular, é na escola que desenvolve competências essenciais para o seu desenvolvimento pessoal: “Pude desenvolver minhas habilidades com música, política e também a minha espiritualidade, pois existem projetos que me dão apoio e valorizam esse aspecto da educação”, conta.

“Trazendo as crianças e jovens para dentro da instituição é possível afastar, especialmente aquele em situação de vulnerabilidade social, da violência e da criminalidade. São questões tão importantes quanto as questões cógnitas, ou até mais relevantes.”

Marco Antônio Guariento Barbosa, coordenador da 3ª Série do Ensino Médio

Sobre as mudanças efetivas na grade escolar e seus impactos nos alunos, o professor Guariento Barbosa acredita que ainda é cedo para opinar, já que a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), que apresentará as diretrizes a serem seguidas, ainda não foi homologada. “Somente depois que o documento for aprovado e passar pelos conselhos estaduais, saberemos efetivamente que adequações serão feitas nas disciplinas”.

Até agora, o novo formato do Ensino Médio prevê a obrigatoriedade apenas das disciplinas de Português e Matemática. Os “estudos e práticas” de Filosofia, Sociologia, Educação Física e Artes também estão descritos como obrigatórios, mas ainda não são claros os critérios de exigência e a carga horária das disciplinas. A estudante Paola Veloso, de 17 anos, torce para que as matérias não fiquem prejudicadas pelas mudanças. O coordenador pedagógico Rodrigo Simões, responsável pelo ensino médio de uma instituição privada de ensino, acredita que a existência e o peso das disciplinas não devem ser o centro das atenções, mas sim a efetividade do conteúdo oferecido. “A discussão sobre a existência ou não de uma determinada disciplina não deveria ser a prioridade entre as discussões, como vemos hoje. Vale até mesmo perguntar: a simples existência das disciplinas garante mesmo o aprendizado?”, questiona.

Mesmo assim, Guariento Barbosa espera que os estudos além de Português e Matemática não fiquem limitados.

“Só depois da aprovação, saberemos o quanto os estudos e práticas das outras disciplinas representarão na carga horária e como o conteúdo chegará aos alunos. Na minha opinião, essas disciplinas fazem muita falta no ensino médio, até mesmo para ajudar a trabalhar o lado emocional. O currículo atual é muito extenso e precisa ser revisado, sim, mas se limitar o estudante, passa a ser problemático.”

Enquanto a grade curricular ainda é rodeada por dúvidas e questionamentos, o aumento da carga horária já está em vigor e tem prazo para ser cumprido. De acordo com o Ministério da Educação, as escolas brasileiras deverão, até 2022, oferecer pelos menos 1.000 horas-aula anualmente e os estados já estão liberados para adotar a ampliação de forma progressiva.

TUDO O QUE VOCÊ PRECISA SABER

Veja algumas perguntas respondidas pelo Ministério da Educação sobre a reforma

Como será o currículo do novo ensino médio?

O currículo do novo ensino médio será norteado pela Base Nacional Comum Curricular (BNCC), obrigatória e comum a todas as escolas (da educação infantil ao ensino médio). A BNCC definirá as competências e conhecimentos essenciais que deverão ser oferecidos a todos os estudantes na parte comum (1.800 horas), abrangendo as quatro áreas do conhecimento e todos os componentes curriculares do ensino médio definidos na LDB e nas diretrizes curriculares nacionais de educação básica. Por exemplo, a área de Ciências Humanas compreende História, Geografia, Sociologia e Filosofia. As disciplinas obrigatórias nos três anos de ensino médio serão Língua Portuguesa e Matemática.

O restante do tempo será dedicado ao aprofundamento acadêmico nas áreas eletivas ou a cursos técnicos, a seguir: I – Linguagens e suas tecnologias; II – Matemática e suas tecnologias; III – Ciências da natureza e suas tecnologias; IV – Ciências humanas e sociais aplicadas; V – Formação técnica e profissional. Cada estado e o Distrito Federal organizarão os seus currículos considerando a BNCC e as demandas dos jovens.

Quando começa o novo ensino médio? Já começa agora?

 O novo modelo depende ainda da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) que está em elaboração e será homologada ainda neste ano. A BNCC será obrigatória e irá nortear os currículos das escolas de ensino médio.

Após essa etapa, no primeiro ano letivo subsequente à data de publicação da BNCC, os sistemas de ensino deverão estabelecer um cronograma de implantação das principais alterações da lei e iniciar o processo de implementação, conforme o referido cronograma, a partir do segundo ano letivo.

Como serão implantadas as escolas em tempo integral?

A reforma do ensino médio prevê ainda uma Política de Fomento de Escolas em Tempo Integral, que deverá ocorrer de forma gradual. Está previsto um investimento do Governo Federal de R$ 1,5 bilhão até 2018, correspondendo a R$ 2.000 por aluno/ano e criando 500 mil novas matrículas de tempo integral. Até 2024, o país deve atender, pelo menos, 25% das matrículas.

Atualmente, são 386 mil alunos matriculados no ensino médio em tempo integral, o que representa 5% do total.

SÓ PORTUGUÊS, NÃO DÁ  

A inclusão da segunda língua no currículo escolar já é quase obrigatória entre as escolas da rede particular e deve se tornar também entre as instituições públicas

Se o conhecimento em uma segunda língua, especialmente o inglês, é desejável para a maior parte das vagas disponíveis atualmente no mercado de trabalho, é provável que nos próximos anos ele se torne obrigatório. Uma das mudanças propostas pelo Governo Federal para a reforma educacional é a obrigatoriedade do inglês desde o 6º ano do ensino fundamental.

Maria Eduarda Fernandes Archer, 16 anos, teve o primeiro contato com a língua inglesa no colégio onde estuda, uma grande instituição de ensino da rede particular, com duas unidades em Belo Horizonte. Aos 10 anos, ela decidiu intensificar os estudos e procurou um cursinho especializado que fornecesse um conhecimento extra. A paixão pelos idiomas estrangeiros foi tanta que hoje, aos 16 anos, a estudante fala inglês fluentemente, tem nível básico de francês e estuda espanhol.

“A integração entre os países não para de crescer e precisamos aprender novas línguas para que sejamos bons profissionais e para que possamos atender às novas demandas do mercado.”

Maria Eduarda Fernandes Archer, estudante

Há três anos, após uma reformulação nas aulas de idiomas oferecidas pelo colégio, que intensificou a carga-horária de Inglês e Espanhol, Maria Eduarda dispensou as aulas particulares e mantém o aprendizado apenas com as aulas oferecidas pela instituição onde cursa o ensino médio. “O programa atual da minha escola é muito desenvolvido e garante o aprendizado de quem tem interesse. Seria importante para o país que essa iniciativa fizesse parte de outras escolas, sejam elas públicas ou privadas. É importante que esse aprendizado aconteça na escola, pois é a fase preparatória para a vida profissional”, afirma.

MUNDO GLOBALIZADO E REDES SOCIAIS AUMENTAM A DEMANDA E O INTERESSE DOS ALUNOS PELO INGLÊS

Assim como a escola particular onde Maria Eduarda estuda, a instituição dirigida por Eldo Couto, uma grande escola particular no bairro Nova Floresta, defende a introdução da segunda língua ainda na educação infantil, ganhando uma carga horária de 3 a 4 aulas semanais a partir do ensino fundamental.

“O ensino do inglês é fundamental, pois facilita o processo de comunicação entre os jovens com o restante do mundo. É importante lembrar que eles estão conectados o tempo todo com o mundo globalizado por meio, principalmente, das redes sociais”, afirma.

Matéria originalmente veiculada na Revista Veja, Especial Educação, do mês de setembro de 2017.