Quem não recebeu uma mensagem pelo WhatsApp, contando uma história envolvendo os cantores espanhóis Plácido Domingo e José Carreras, uma comovente narrativa que fez muitos olhos lacrimejarem? Ou quem não se julgou especialmente favorecido pelo conhecimento adquirido ao saber que a pinga surgiu no Brasil por acaso, tendo sido chamada de aguardente porque pingava e ardia nas costas lanhadas e expostas de pobres escravos, que labutavam na fabricação do açúcar no Brasil Colonial? Ou quem não comentou com alguém que provérbios existentes há longos anos, como “Quem tem boca vai a Roma”, estão errados e que, no caso em questão, a forma correta é “Quem tem boca vaia Roma”?

Tudo fake.

E como a internet possibilita que os conteúdos, mesmo falsos, se espalhem pelo mundo como fogo em um rastilho de pólvora, Plácido Domingo e José Carreras julgaram-se obrigados a desmentir publicamente a história inventada não se sabe por quem. Já a aula gratuita sobre origem da aguardente no Brasil teve que ser desmentida pela fonte citada, o Museu do Homem do Nordeste, em Recife. E a correção do tal provérbio não levou em conta que ele existe há séculos em outras línguas: “Qui langue a, à Rome va”, “Preguntando se llega a Roma”, “Chi ha lingua arriva a Roma”.

Do mesmo modo, falsos textos de Shakespeare, Jorge Luis Borges, Papa Francisco, entre outros autores, repletos de lugares comuns e sandices, circulam e fazem sucesso, motivando os inocentes a repassá-los, esclarecendo simplesmente  com a frase “Encontrei na internet”, uma atualização de formas  muito usadas antigamente: “ Deu no jornal”, “Ouvi no rádio”, “Vi na televisão”.

Evidentemente, essas brincadeiras de quem se aproveita da ingenuidade ou da pouca leitura alheia poucos danos causam. Contudo, o mesmo não se aplica à ação irresponsável, maldosa ou criminosa de pessoas que postam vídeos, textos ou áudios, com objetivos variados.

O objetivo mais comum e ambicioso é viralizar na rede, tornando-se uma celebridade, mesmo que seja por tempo curtíssimo. Para efetivar isso, quanto mais impactante o conteúdo, melhor. E nesse terreno, vale tudo, desde expor a vida privada de pessoas que tiveram seus aparelhos eletrônicos roubados ou invadidos por hackers, à divulgação de cenas chocantes ou hilariantes, mesmo sabendo que podem causar verdadeiros desastres nas vidas dos implicados e serem vistas por crianças ou indivíduos fragilizados ou excessivamente impressionáveis.

Como a divulgação de qualquer conteúdo ficou extremamente fácil e rápida devido a aplicativos muito práticos e eficientes, principalmente o WhatsApp, o uso feito de maneira irresponsável ou impulsiva pode atingir seriamente a honra e a credibilidade de pessoas físicas e jurídicas. Por exemplo, se alguém se julga prejudicado, injustiçado ou mal-atendido por um profissional ou uma empresa e posta um vídeo, um áudio ou um texto divulgando sua insatisfação ou revolta, utilizando uma linguagem frequentemente agressiva e ofensiva, sem o cuidado de antes esclarecer as razões ou os fatos, pode estar comprometendo injustamente a integridade dos atingidos. Considerando a rapidez com que as mensagens se disseminam, esclarecimento ou arrependimento posteriores dificilmente corrigirão o prejuízo causado pelo erro.

Hoje, uma câmera e algumas palavras podem causar estragos irreparáveis, mesmo que aquela seja usada por pessoas comuns e estas a por gente até bem-intencionada. Assim, em tempos em que vicejam “ciberpiratas”, “ciberaventureiros”, “ciberpalhaços” e pessoas com o peito cheio de indignação, é necessário ter sempre em mente que uma mensagem divulgada com facilidade no Facebook ou no WhatsApp pode não só ferir, como matar a autoestima, a alegria e as esperanças de pessoas que querem apenas continuar a viver suas vidas já tão cheias de dificuldades e problemas no dia a dia.